
Um recurso visual que oferece muitas possibilidades de composição está em justapor elementos de modos a mesclar obras pintadas com objetos de uso cotidiano. Trata-se de uma maneira das artes visuais promoverem o diálogo entre técnicas tradicionais e a incorporação de elementos do dia a dia.
Essa estratégia é uma maneira justamente de dessacralizar a arte, aproximando-a do público, e, ao mesmo tempo, de ressignificar muita coisa que está ao nosso redor e que pode passar a ter um valor artístico desde que passe a ser visto de uma outra maneira, dentro da ideia de que passa a ser arte aquilo que assim nomeamos em um determinado contexto.
Patricio Simbine, de Maputo, Moçambique, trabalha, na obra que ilustra este post, com essas ambiguidades em uma perspectiva dialética. Existe a presença da pintura, mas também dos óculos e de uma máscara contra gases. O conjunto funciona como um alerta para o atual momento de pandemia, mas também apresenta bom humor e ironia.
Vale a pena ressaltar como essa capacidade de apresentar assuntos de extrema seriedade com a dose crítica que um leve sorriso gera é um exercício dos mais importantes. O poder do riso de desconstruir situações tensas é enorme – e, nesse sentido, a obra de Patricio Simbine nos faz pensar sobre ações presentes e futuras perante a pandemia.
Esta obra faz parte da Coletânea do Projeto Dias de Reclusão.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Coordena o projeto @arteemtempodecoronavirus e é responsável pelo site www.oscardambrosio.com.br