







A tensão perante a quarentena pode ser representada de muitas formas. Foi nesse período de confinamento e isolamento social que Chico Brasil fez a modelagem da peça que acompanha este post. Terminada em terracota e inspirada no célebre “Davi”, de Michelangelo, expressa o sentimento do artista perante o mundo no período.
A obra original, inicialmente colocada, em 1504, em frente ao Palazzo della Signoria, sede da governadoria de Florença, possui 5,17 m de altura e representa o herói bíblico de uma maneira até então inusitada, não vitorioso, mas pensativo antes do combate com Golias. A posição do corpo e a forma de retratar as suas veias mostra a expectativa de enfrentar o adversário.
Usuário de Saúde Mental há 21 anos e militante na Luta Antimanicomial, Chico Brasil considera Van Gogh e Artaud como seus mestres e, em sua obra, de 75 cm de altura, traz uma das esculturas icônicas do Renascimento por uma ótica expressionista, ou seja, com uma poética visual regida pela força criativa que vem de dentro para fora.
O trabalho apresenta muita intensidade, perceptível nas reentrâncias em todo o corpo. Existe um movimento interno da obra que a afasta da postura clássica de reprodução do real em direção a uma interpretação de emoções e sentimentos própria de nosso século, em que se torna essencial que a arte traga uma interpretação pessoal e significativa do mundo.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Coordena o projeto @arteemtempodecoronavirus e é responsável pelo site www.oscardambrosio.com.br