
A solidão motivada pelo confinamento para conter a pandemia gerou um curioso fenômeno de despersonalização. Na proporção que mergulhamos em nós mesmos pela ausência de contato físico com outras pessoas, houve uma perda da noção de tempo, pois todos os dias parecem iguais.
Simultaneamente, sem a validação de nós mesmos que ocorre pelo diálogo com os outros, não foram poucos os que se sentiram como a figura da imagem intitulada “Thais Cristina”, óleo sobre tela pintado por Gilda Sabas, de Diadema, SP. O fato de a imagem do quadro não ter olhos ou nariz remete a esse difícil exercício de autoconhecimento.
O fundo azul, os lábios vermelhos, o coque e a blusa em tons de lilás e os ocres e alaranjados do cabelo e da tez constroem uma imagem plena de mistérios e incertezas. A obra transmite com lírica precisão a percepção de muitas pessoas para lidar com este momento de pandemia e mesmo para enfrentar a nova normalidade em processo de consolidação.
A obra de Gilda Sabas estabelece um clima de perguntas muito contemporâneo. Com mais indagações do que respostas, podemos nos sentir justamente como a figura retratada, sem saber como e em qual direção olhar perante um novo mundo que se configura de uma maneira que custaremos a entender. A arte, como sempre, é uma ajuda nesse processo.
Esta obra faz parte da Coletânea do Projeto Dias de Reclusão.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Coordena o projeto @arteemtempodecoronavirus e é responsável pelo site www.oscardambrosio.com.br