
Quando a sociedade passa por um momento difícil como o atual, costumam surgir, artisticamente, dois movimentos. Um deles é a criação de uma realidade apocalíptica, em que se vislumbra um mundo ainda pior; o outro busca a construção de espaços em que podemos esquecer dos sofrimentos presentes.
Carmen Kuntz, de Sorocaba, SP, em “Espera”, obra realizada com arte têxtil e patchwork, caminha por essa segunda vereda, em que é criado um universo agradável no qual se espera viver após a pandemia. O mais assustador é como nosso olhar vai se tornando viciado, e o sol e mesmo o montículo abaixo da vegetação remetem, para alguns, à imagem do coronavírus.
A atmosfera agradável mostrada é para onde se deseja voltar ou para onde se quer fugir. É significativo perceber como esses ambientes mais simples e naturais, que eram às vezes ridicularizados dentro da lógica metropolitana, passaram a ser vistos como paraísos perdidos, dentro de uma óptica de revalorização da natureza.
A imagem criada por Carmen Kuntz traz essa força que emana da simplicidade perdida. Parece haver ali, na segurança de um ambiente isolado, a possibilidade de uma vida melhor. Essa revogar da vida simples mais próxima da natureza será uma tendência pós-pandemia? Ao que tudo indica, sim. E a obra da criadora que acompanha este post aponta para isso.
Esta obra faz parte da Coletânea do Projeto Dias de Reclusão.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Coordena o projeto @arteemtempodecoronavirus e é responsável pelo site www.oscardambrosio.com.br