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Arte em tempo de coronavírus (486)

Arte em tempo de coronavírus (486)
18/07/2020

A voz humana tem múltiplas significações. A principal delas, é claro, está na comunicação, mas essa ideia de se relacionar com o mundo por meio da palavra está muito além do racional. E com a voz que manifestamos também os nossos gritos, seja de dor ou de alegria. Por meio da voz, nos expressamos, nos entendemos e nos desentendemos também.

Assur Mutete, de Nampula, Moçambique, com o trabalho realizado com tinta acrílica sobre tela “Por que África?”, evidencia essas e outras questões. A figura de um homem de máscara em primeiro plano, em que as tonalidades de sua boca aberta dialogam com a gola de sua blusa, está repleta de força.

Estar livre da máscara expressa a potencialidade de se manifestar com toda intensidade, utilizando o potencial da própria voz para ser ouvido. A máscara que protege da COVID-19, embora pareça cercear, é um rumo para a vida, desde que se entenda que estar com a boca e o nariz cobertos não é limitador.

A obra de Assur Mutete aponta justamente para o estabelecimento de uma nova normalidade em que seja possível ter o direito de falar em voz alta, no sentido literal e simbólico, e em que o uso obrigatório de máscaras possa ser substituído pelo ato universal de abraçar ao próximo sem medo, em atos globais de solidariedade física e emocional.

Esta obra faz parte da Coletânea do Projeto Dias de Reclusão.

Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Coordena o projeto @arteemtempodecoronavirus e é responsável pelo site www.oscardambrosio.com.br