
Uma das visões mais impressionantes do período de quarentena ou de lockdown (confinamento) a que muitos locais se submeteram no mundo foi contemplar as cidades vazias. Metrópoles se tornaram, de um dia para outro, ambientes isolados, sem a presença de pessoas e de veículos. Nesses espaços, porém, a natureza continuou a vicejar.
A obra de Elyethe Marinho traz essa triste realidade por meio da representação de um cenário em que a conversa entre as fachadas sóbrias e as flores em esplendor se dá de várias formas, criando uma atmosfera que mescla o mistério com a beleza, pois a ausência do elemento humano gera um ambiente metafísico, que nos leva a pensar na utilidade de nossa existência.
A tonalidade da fachada ao fundo dialoga com a de algumas das flores, mostrando a possibilidade, talvez, de uma integração entre esses dois mundos. Mas o que salta aos olhos é a intensidade cromática das flores perante os tons mais esmaecidos de uma cidade fantasmagórica.
Elyethe Marinho mostra a riqueza de trabalhar com o conceito de vazio de humanidade. Elementos arquitetônicos e/ou fenômenos da natureza ganham uma relevância simbólica que nos faz pensar em sua autonomia. Os primeiros foram criados pelo ser humano; os outros não; e a artista, quando os coloca em conjunto, aponta para a criação de uma supra-realidade.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Coordena o projeto @arteemtempodecoronavirus e é responsável pelo site www.oscardambrosio.com.br