
À espera de mamãe
A crise de saúde pública vivida pelo mundo perante as consequências do novo coronavirus faz muitas vezes esquecer que a realidade social de boa parte da população brasileira já era muito difícil pré-pandemia. O abismo social anteriormente existente só fez aumentar e as questões envolvidas estão além do financeiro. Afetam as relações familiares.
Ge Guevara, em “À espera de mamãe”, traduz em imagens uma percepção de mundo que precisa ser disseminada para que não se eternize. O conceito da mulher que trabalha e que deixa seus filhos sozinhos em casa só se agravou durante o isolamento imposto pela COVID-19, com escolas e creches fechadas, mas a questão é antiga e grave.
O tom ocre das paredes, o contraste entre o semblante triste dos que esperam a mãe voltar enquanto a televisão mostra cenas alegres, os animas de estimação integrados no cotidiano e a desordem das crianças e jovens que vão se virando para tomarem conta da residência, perdendo a infância e sendo obrigados a assumir responsabilidades de adulto, preocupam.
A obra de Ge Guevara é um alerta, quase um manifesto. A representação da realidade que faz é mais do que uma interpretação. Trata-se de um flagrante que não é exceção, mas, infelizmente, o cotidiano de cidadãs que não param de lutar e de manter a esperança de melhorias. A pergunta é até quando física e mentalmente cada uma delas aguenta.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Coordena o projeto @arteemtempodecoronavirus e é responsável pelo site www.oscardambrosio.com.br