
A necessidade de enfrentar a pandemia gerou a disseminação de uma expressão praticamente desconhecida, “isolamento social”. Acompanhada de reclusão, termo utilizado até então de variadas maneiras, essa percepção de estar só em casa, ou no máximo acompanhado da família mais próxima, tem múltiplos desdobramentos físicos, e mentais.
Um deles está na percepção individual, ou mesmo coletiva, de que se passou a viver em um casulo, no qual todos somos lagartas prontas a nos tornar borboletas, embora essa data de saída para o mundo externo permaneça indefinida e varie entre continentes, países, regiões e cidades.
A aquarela “Quando o Setembro chegar”, de Ana Maria Bauer, alude justamente a esse momento de libertação. Três borboletas rodeiam um casulo, como a anunciar o amanhã que pode vir não só com a primavera, mas com a vacina contra a COVID-19 ou mesmo com medicamentos comprovadamente eficientes e eficazes.
Ao contrário que se costuma pensar, a lagarta, dentro do casulo, não está dormindo, quieta. Passa ali por numerosas transformações. Analogamente, cada um de nós, na pandemia, não se recolheu e ficou anulado, estagnado. Muitas transformações correram e mais mudanças vão acontecer. A obra de Ana Maria Bauer, com delicadeza, nos alerta para isso.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Coordena o projeto @arteemtempodecoronavirus e é responsável pelo site www.oscardambrosio.com.br