
A ideia de reclusão era algo que a sociedade via, antes da pandemia, muito relacionada apenas a prisões. O conceito generalizado era que estar privado da liberdade se associava a alguma falha cometida perante a sociedade que devia ser punida de alguma maneira, em locais apropriados e vigiados.
Esse tipo de raciocínio precisou ser inteiramente revisto com a COVID-19. A arte digital de Ale Abdo, de São Paulo, SP, intitulada “Reclusion”, coloca a questão de maneira distinta. A presença da palavra que intitula a obra em vários idiomas já indica que o foco é universal; e as dificuldades atingem cada indivíduo e o conjunto da sociedade.
Atrás de grades, temos uma figura humana e um mundo. A discussão sobre quem está preso e quem está solto pode ser lida justamente na concepção de que uma das maneiras de estar cerceado é perder a capacidade de viajar da mente. Quando isso ocorre, quando os sonhos partem, uma espécie de morte se instaura.
A imagem expressa um pensar que mostra a existência de válvulas de escape à reclusão, tanto físicas como simbólicas. Uma delas é a arte. Ale Abdo, ao criar sua imagem, nos transporta para um mundo que tem referências neste, conhecido, mas que possibilita mergulhar em outras dimensões, das quais voltamos renovados para lidar com a que julgamos conhecer.
Esta obra faz parte da Coletânea do Projeto Dias de Reclusão.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Coordena o projeto @arteemtempodecoronavirus e é responsável pelo site www.oscardambrosio.com.br