textos

diárias de bordo

Arte em tempo de coronavírus (430)

Arte em tempo de coronavírus (430)
04/07/2020

Uma dificuldade que muitos artistas plásticos vêm enfrentando durante a pandemia é a de falta de material, pois, com as medidas de isolamento social, variáveis em cada cidade, as lojas para adquirir tintas, papeis ou telas ficaram ou estão fechadas. O momento é de reinvenção até nesse sentido.

Ge Guevara nos dá um exemplo disso ao tomar uma tábua velha e pintar nela um vaso de flores. A arte expressa assim a sua força de dar vida ao que parecia morto. Esse papel regenerador da criação visual é o que encanta sempre e dá esperança para continuar mesmo quando parece que não alternativas.

Ser artista é justamente estar conectado com a possibilidade de exercer, das mais diferentes maneiras, os três papeis atribuídos geralmente aos deuses: criar, conservar e destruir. Ao se fazer uma obra, mantém-se elementos e destroem-se outros. Trata-se de um ato demiúrgico, porque obriga a pensar também nas dimensões temporais do passado, presente e futuro.

A tábua velha morreu, mas parte dela permanece na criação da nova. Significativamente, surgiram flores, que estão relacionadas com a reprodução das plantas. Assim o ciclo permanece. A madeira, ser vivo por excelência, tem seu tempo de nascer, viver e morrer, assim como nós, humanos. A arte é, nesse sentido, uma ilusão de se manter vivo eternamente.

Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Coordena o projeto @arteemtempodecoronavirus e é responsável pelo site www.oscardambrosio.com.br