textos

diárias de bordo

Arte em tempo de coronavírus (416)

Arte em tempo de coronavírus (416)
02/07/2020

A caminhada existencial é feita de ambiguidades. Este momento de enfrentamento à pandemia causada pelo novo coronavírus também. Múltiplas decisões precisaram ser tomadas tanto pelos governantes como pelas pessoas comuns para enfrentar a COVID-19 – e os caminhos nem sempre vêm sendo os mesmos.

A escultura em cedro de Índio da Cruz, de Socorro, SP, traz ao campo visual do observador dois personagens que se complementam. Embaixo, temos uma pessoa de máscara, protegida, mãos entrelaçadas em um gesto de humidade ou prece perante uma situação que poucos esperavam viver.

Esse personagem tem ainda que carregar um outro, sem máscara, mãos abertas em volta do rosto, contemplativa. Não olha para aquele que está embaixo e nos encara. O que ele quer nos dizer? Difícil saber... O fato estético é que ambos não parecem dialogar entre si – e cada um parece determinado a prosseguir a sua própria jornada vivencial.

O encanto da peça escultórica está nessa ausência de interação entre as duas figuras. A imagem se torna um alerta à realidade contemporânea, em que o diálogo se torna progressivamente difícil – e é somente por meio da conversa construtiva que as divergências podem ser tratadas com maturidade rumo a uma sociedade melhor.    

Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Coordena o projeto @arteemtempodecoronavirus e é responsável pelo site www.oscardambrosio.com.br