
Doris Solano, de São Carlos, SP, na obra “Entremeado”, pintada com tinta acrílica sobre tela, traz uma visão que cristaliza diversos elementos simbólicos que possibilitam várias portas de interpretação. Acima de tudo, porém, o que chama a atenção é o jogo cromático realizado entre as asas e o corpo do pássaro e a vegetação.
A utilização de vermelhos, verdes e amarelos permite uma dinâmica interna do quadro que acentua o voo da ave. Ao mesmo tempo que se mostra as patas enredadas nessas folhas, como se houvesse uma dificuldade para alçar voo, existe a certeza de que o obstáculo pode ser vencido pela capacidade do animal de ganhar o espaço.
Um elemento curioso é o sol, pois, se, por um lado, tem a magnitude do astro e toda a sua potência energética; por outro, a figura acaba por remeter, quase de maneira inconsciente, às representações visuais do novo coronavírus. Essa analogia mostra como o novo normal que começa a ser configurado traz na memória a onipresença da pandemia.
Pássaros voando são um estímulo à imaginação. Sair do patamar humano e buscar novos parâmetros é um desejo muito bem representado no mito grego de Ícaro, em que o jovem morre pelo desejo de atingir o sol, cujo calor derreteu as suas asas de cera carinhosamente feitas pelo pai. Que as asas e plumas das aves nos levem cada vez mais longe...
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Coordena o projeto @arteemtempodecoronavirus e é responsável pelo site www.oscardambrosio.com.br