
A pandemia causada pelo novo coronavírus trouxe inúmeros questionamentos. Um deles está associada ao papel da mulher consigo mesma e com a sociedade como um todo. O isolamento social, entre suas consequências, gerou uma situação em que o sexo feminino passou a conviver com mais funções, além daquelas que já acumulava.
O convívio em tempo integral com a família, a supervisão plena da educação dos filhos e, muitas vezes, o cuidado com idosos se somaram a tarefas profissionais e domésticos em um processo de autoconhecimento gradual, infelizmente muitas vezes permeado por períodos de violência doméstica, de tristeza e mesmo de depressão.
Ana de Andrade recostura a vida dessas mulheres. Com aquarela ou tinta acrílica, faz manchas sobre tecidos e, sobre aquilo que as linhas lhe sugerem, costura rostos. Esse processo constitui um caminhar pela própria vida e pela das mulheres. Cada imagem oferece assim um portal de sentidos para o que é ser mulher e como ela se apresenta para si mesma e para o mundo.
É, porém, nos avessos das costuras, nos fiapos das linhas e naquilo que as pessoas não prestam atenção que se manifesta o verdadeiro eu. É naquilo que as mulheres não falam e no que tentam esconder que está a essência do significado da pandemia. É essa busca pelo avesso das mulheres que instiga e torna a pesquisa visual de Ana de Andrade fascinante.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Coordena o projeto @arteemtempodecoronavirus e é responsável pelo site www.oscardambrosio.com.br