
Uma das imagens mais impressionantes destes tempos de pandemia é a dos enterros em valas comuns. Trata-se de uma situação praticamente inimaginável para a maioria de nós, mas que teve que ser praticado em várias localidades perante um sistema funerário em colapso ou à beira disso. A cena tem um enorme significado social e psicológico.
Não ter velório, enterro, Missa de Sétimo Dia e um túmulo para depositar flores significa destruir ritos fundamentais, na maioria das mitologias, da passagem da vida para a morte. O significado dessas cerimônias auxilia a manter a saúde mental dos parentes perante qualquer perda, ainda mais quando elas ocorrem em massa, como ocorre devido à COVID-19.
Adão Domiciano, de Cuiabá, MT, enfoca o tema, em “Sem Flores e Sem Velas”. Realizada com tinta acrílica e aquarela, a obra traz os principais personagens desse triste momento. Os caminhões que trazem os caixões, as escavadeiras que cobrem as valas, as famílias que contemplam tudo atrás de uma cerca e os funcionários responsáveis pelo processo.
A aprimorada técnica do artista é revelada na maneira de montar a composição da cena, com a presença da área verde em torno dos túmulos, da cidade ao fundo e de um céu cinzento com a presença de cruzes e pássaros brancos, relacionados ao Espírito Santo e a anjos. A imagem oferece assim uma interpretação contundente a ser lembrada para que não se repita.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Coordena o projeto @arteemtempodecoronavirus e é responsável pelo site www.oscardambrosio.com.br