
A questão feminina é central na obra de Vera Lucchini. Perante o novo coronavírus, a COVID-19 e a pandemia, que levaram ao isolamento social, a sua obra ganha uma nova leitura, pois a situação da mulher nessa conjuntura ganhou conotações que antes já existiam, é claro, mas que estão recebendo maior visibilidade.
O uso de cacos e restos de louças para confecção de suas bonecas quebra o paradigma da aceitação e da passividade como a característica própria da mulher. A história de vida de muitas delas, principalmente quando o confinamento social fez aumentar o número de casos de violência doméstica, está marcada pela dor e pelo sofrimento.
Os cacos têm, no mínimo, duas leituras possíveis. A primeira aponta para as existências que são fragmentadas por tudo aquilo se sofre tanto em termos psicológicos como físicos, em manifestações contra a sua integridade e sexualidade, principalmente em uma sociedade machista. As pessoas, assim, se rompem, se quebram, por dentro e por fora.
A segunda indica a reconstrução. Brincar de boneca, que alguns ainda veem como um treino para ser mãe, dentro de uma concepção patriarcal de sociedade, alude a se refazer enquanto pessoa. Os cacos machucam todos: quem brinca e quem observa. Assim, as indagações sobre o significado de ser mulher no começo do século XXI ganham novas dimensões.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Coordena o projeto @arteemtempodecoronavirus e é responsável pelo site www.oscardambrosio.com.br