textos

diárias de bordo

Arte em tempo de coronavírus (359)

Arte em tempo de coronavírus (359)
19/06/2020

“Liberdade”, de Patricia Helney, é uma obra contundente do momento que o mundo atravessa, quando a presença da morte, devido à COVID-19, se torna cotidiana, em uma escala altamente significativa que poucos pareciam imaginar em um primeiro momento. Nesse sentido, a sua imagem reúne diversos elementos simbólicos.

Talvez um dos mais importantes esteja no trem. Ele surge de maneira sutil, mas traz em si a grande metáfora da obra, que é a da concepção da vida como uma jornada em que é possível passar de um lado para outro a qualquer momento – e, muitas vezes, sem avisos anteriores, o que se torna difícil de aceitar quando se entende o fim da viagem como o término de tudo.

Perante o tom Apocalíptico que muitos vivenciam física e psicologicamente, a pintura coloca em destaque os quatro evangelistas, em suas representações clássicas, todas aladas: Mateus como homem; Marcos, como leão; Lucas, como touro alado; e João, como águia. No céu, terminada a jornada terrestre, há muitas e encantadoras moradas para quem assim o merecer.

O trabalho tem a sua maior qualidade visual em tratar de temas complexos e densos com intensa beleza plástica. Entender a morte como uma liberdade implica na aceitação da vida como uma passagem para um outro estágio em um processo que deixa, naqueles que ficam, saudade, que é o lírico e doído sentimento da presença de uma ausência.

Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Coordena o projeto @arteemtempodecoronavirus e é responsável pelo site www.oscardambrosio.com.br