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Arte em tempo de coronavírus (339)

Arte em tempo de coronavírus (339)
15/06/2020

O desenho sobre papel “Morada Eterna”, de Nildo Machado, apresenta uma contundente imagem sobre o momento que o país atravessa na sua luta contra a pandemia causada pela COVID-19. O grande número de mortes assusta e a necessidade imperiosa de abrir novas covas com urgência em algumas cidades do país choca.

A presença dos tons terrosos auxilia a estabelecer uma atmosfera de angústia. O artista traz a sua visão da questão com alguns elementos surpreendentes. Os novos coronavírus surgem em verde, tanto perto das cruzes como também em gigantescos tatus, junto aos locais em que haverá enterros.

As cores utilizadas são bem significativas, com os animais em amarelo e os microrganismos em verde, aludindo à bandeira nacional. As cruzes portam máscaras negras, indicando o luto – e essa cor é a mesma das covas. A presença dos tatus, seres vinculados à terra, cria uma relação entre a sua atividade de abrir buracos no solo e a do coveiro.

Vale lembrar que o tatu-canastra está ameaçado de extinção, devido à caça para obtenção de carne e ao desmatamento do seu habitat. Ele vive na Floresta Amazônica e em trechos de Mato Grosso e conta com garras enormes nas patas anteriores que auxiliam na escavação de buracos. A obra, portanto, atesta as tragédias de saúde pública e ambiental que assolam o país.

Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Coordena o projeto @arteemtempodecoronavirus e é responsável pelo site www.oscardambrosio.com.br