
A arte é uma forma de interpretar não só o mundo, mas também as origens da existência. Quando se cria um objeto de qualquer natureza, parece inevitável pensar sobre as nossas raízes pessoais e, nesse sentido, a questão logo se amplia para o começo de tudo, que inclui o início de nossa relação com o universo.
A pintura “Se plantarmos a semente”, de Clóvis Camargo, traz uma imagem que remete aos mitos ancestrais da criação. O cocar e o colar, por exemplo, de cor amarela, apontam para narrativas primordiais de muitas culturas, desde os indígenas brasileiras ao Egito, entre outras, em que o sol desempenha um papel fundamental.
Nas mãos do protagonista, temos a presença da semente, símbolo primordial da vida, do início dos tempos, vinculada a histórias fundadoras, já que ela germina na terra, o ventre de tudo que ali é depositado. Em última análise, ao abrigar um elemento da natureza, o protagonista, de maneira carinhosa, cuida do futuro de todos nós.
As penas brancas, cor associada em diversas mitologias à lua; as penas de aves e as flechas, adornos ligados ao movimento ascensional em busca dos deuses; e a pintura corporal, outra forma de conversa com o divino, são elementos que se articulam na pintura de Clóvis Camargo rumo a um pensar em que toda arte, em síntese, é um refletir sobre a origem da vida.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Coordena o projeto @arteemtempodecoronavirus e é responsável pelo site www.oscardambrosio.com.br