
Há muitos que acreditam que os criadores considerados naifs, muitas vezes por serem de origem humilde, não têm acesso a alguns dos principais autores de obras significativas da arte universal nas suas mais diversas manifestações, da pintura a objetos ou instalações. No atual mundo da informação, os diálogos entre o chamado erudito e o popular vem se acentuando.
A composição de cadeira e banquinho de Vânia Cardoso, de Socorro, SP, que acompanha este post mostra exatamente o contrário. Apaixonada pela obra de Arthur Bispo do Rosário, ela faz a sua interpretação do trabalho do mestre sergipano com o uso do material com o qual lida no cotidiano de suas obras, os retalhos de tecidos.
O resultado não poderia ser mais vigoroso. Enquanto o Bispo produzia objetos com materiais provindos de lixo e sucata, a partir dos quais fazia seus navios, estandartes, faixas de misses e numerosos objetos, utilizado a repetição, a justaposição e os bordados; Vania, traz novos elementos em sua homenagem e interpretação, principalmente pelo amplo uso de cores.
A partir de uma cadeira quebrada, surge a composição que lhe dá um novo aspecto. O diálogo com o banquinho permite uma ressignificação, palavra contemporânea que indica que os objetos cotidianos podem ganhar outro sentido. Saem do utilitário do dia a dia e se tornam obras de arte. Fica a pergunta: como Vania Cardoso repensaria a obra de Leonilson?
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Coordena o projeto @arteemtempodecoronavirus e é responsável pelo site www.oscardambrosio.com.br