
Cada artista tem diversas matrizes. A partir delas, vai construindo a sua trajetória, espalhando a sua interpretação do mundo, desconstruindo aprendizados para erguer seu estilo e visões de mundo, em um processo infinito, pois cada novo trabalho é uma porta que se abre para interrogar aquilo que costumamos chamar de realidade.
A criadora pernambucana Delly Figueiredo, com imagens que costumam tender para uma verticalidade, encontra uma de suas referências no que há de melhor na arte brasileira, que é a cultura popular. Suas criações, seja na pintura ou na escultura, evocam toda uma mitologia própria de um Brasil ancestral, que se relaciona com suas tradições europeias e seus elementos autóctones e africanos.
Ao tratar dos rostos, por exemplo, explora a circularidade, mas detalhes de nariz, boca e olhos vão compondo uma fascinante amplitude de visões. Está ali a atenção da artista, caracterizada por um fazer atento, pois a composição de um trabalho visual demanda a observação de cada detalhe como elemento essencial do impacto atingido pelo todo.
Tanto as figuras sagradas como as profanas tendem a ascender, seja pela mencionada verticalidade ou pela intensidade das tonalidades. Há um algo de sagrado, que conduz a um portal de diversidade. As imagens dialogam entre si pelo estilo que as une e pelas diferenças que as individualizam numa peculiar jornada pela complexa e fascinante natureza humana.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Coordena o projeto @arteemtempodecoronavirus e é responsável pelo site www.oscardambrosio.com.br