
O autorretrato é um dos universos mais interessantes da arte. Podemos dizer que se trata de uma representação que o artista faz de si mesmo em determinado momento, podendo mostrar a sua imagem naquele momento ou em momentos anteriores ou mesmo fazendo uma projeção do futuro.
Rembrandt tinha uma obsessão pelo gênero, chegando a fazer quase uma centena de imagens com essas características, mostrando-se em vários momentos da vida; Frida Kahlo fez metade disso; e, no Brasil, Eliseu Visconti exercitou bastante esse jogo visual em que buscar-se/esconder-se é fundamental.
Em tempos de pandemia, a artista M Teresa Rezende vem realizando diversas obras se autorretratando e tem enviado para amigos. Existe ali o captar de um instante em que ela mesma e a própria sociedade vivem, numa realidade em que, com o confinamento, a existência é marcada pela ausência de afetos físicos, como beijos e abraços.
Mas talvez a maior provação do período de confinamento seja a da privação da liberdade. A expressão visual do autorretrato oferece justamente o registro de um tempo do corpo e da alma. Cada vez que se retrata o retratado se expõe e se revela um pouco – e, quando se mostra, apresenta a visão que tem de si mesmo e do mundo.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Coordena o projeto @arteemtempodecoronavirus e é responsável pelo site www.oscardambrosio.com.br