
A relação entre os seres humanos e a natureza ganhou dimensões até então insuspeitadas com a pandemia. Perante a necessidade de confinamento para combater a disseminação do novo coronavírus, a clássica separação do mundo interno e privado da casa com o externo e público da rua passou a ser visto e pensado de maneiras diferentes.
A imagem do artista Jahan Leão, de Pelotas, RS, lida com alguns arquétipos justamente nessa direção. A figura central é uma árvore, símbolo ancestral da força da vida, com sólidas raízes no solo, tronco que ganha altitude e galhos que se ramificam pelo espaço. O corpo, porém, é de uma figura feminina nua, que evoca a Mãe Terra.
Ela, com o rosto parcialmente coberto com máscara preta, aponta para o momento em que vivemos de proteção contra a COVID-19. Seus braços vão se multiplicando pelo vigor da natureza. Há ali um alvorecer surgindo, numa atmosfera em que o vermelho/amarelo de áreas aparentemente queimadas dialoga com o límpido céu azul.
O solo, verde e marrom, segue o mesmo raciocínio de um planeta em transformação. A musa parece nos indicar que o potencial de renascer não arrefece. Um novo tempo se avizinha, mas, para chegar lá, é preciso ter a atitude dela: um olhar esperançoso para o que nos espera, expandindo a nossa capacidade interna e externa de construir um novo futuro.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Coordena o projeto @arteemtempodecoronavirus e é responsável pelo site www.oscardambrosio.com.br