
Claudio Viriato, de Fortaleza, CE, com sua pintura em acrílica sobre tela, coloca o tema do isolamento social numa perspectiva existencial. Intitulado “A moça na quarentena”, o trabalho logo chama a nossa tenção pelo relógio que relembra o célebre quadro de Salvador Dalí “A persistência da memória”.
O tempo ganha, de fato, uma outra dimensão quando a necessidade de ficar em casa é imperiosa por razões de saúde individual e coletiva. A presença do gato com um estranho sorriso, que evoca o célebre personagem de “Alice no País das Maravilhas”, aumenta a atmosfera de mistério da obra.
Assim como os números do relógio que parecem se desfazer no espaço, com seus números fora da ordem conhecida, outros elementos chamam a atenção, como o vaso de flores murchas sobre a mesa. Sim, o tempo a todos desgasta. E a moça, com um arranjo na cabeça, brincos e batom que remetem à célebre pintora Frida Kahlo, bebe (para esquecer?).
A mulher olha diretamente para o observador do quadro. E parece nada encontrar. A solidão existencial exposta por Claudio Viriato está além da quarentena. Ela sabe que o tempo nos vence – e que nascemos, vivemos e morremos sozinhos. Que, de uma forma ou de outra, o tempo consiga lhe mostrar caminhos para achar o que ela possa considerar felicidade...
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Coordena o projeto @arteemtempodecoronavirus e é responsável pelo site www.oscardambrosio.com.br