
Quando se pensa nos meses em que o coronavírus alterou a vida cotidiana de todos nós, surge a falsa impressão de que a saúde do país como um todo e de cada pessoa individualmente se restringem à pandemia. A questão é bem mais sutil e complexa, pois outros males continuaram a afligir as pessoas e a sociedade.
A obra de Lilian Morais que acompanha este post alerta para isso. A artista teve manifestações de labirintite por suas semanas e, mesmo assim, não parou de pintar. Tomar medicamentos adequados e interromper o acompanhamento dos noticiários sobre a COVID-19 foram as ações de seu tratamento.
A imagem trabalha diversos elementos visuais que dialogam a partir dessa realidade vivida. A orelha, o labirinto e as alusões plásticas ao microrganismo e às pessoas vitimadas pela doença compõem um conjunto em que o nosso olhar conversa com o grande olho verde que se destaca na obra, como uma esperança sempre a nos espeitar e iluminar.
A maravilha da arte está justamente nesses encontros. Tornar coletiva uma dor individual é o momento supremo. Trata-se de um processo de compartilhamento de emoções, sentimentos e percepções. A maneira como Lilian Morais articula as suas imagens revela, assim, como a arte visual é um universo de detalhes e articulações a serem cuidadosamente compostas.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Coordena o projeto @arteemtempodecoronavirus e é responsável pelo site www.oscardambrosio.com.br