Jairo Cavalcante: do sagrado ao profano
A fronteiras entre o sagrado e o profano são muito tênues. Dependem da prática do olhar, da visão de mundo e, acima de tudo, da capacidade de manter o espírito livre. Às vezes, a separação pode ser dada por um gesto ou por uma simples porta, símbolo da passagem entre dois mundos.
É o que ocorre com a exposição Do sagrado ao profano: entre Cristos e mulheres. São 28 obras divididas em dois ambientes. Ao entrar na galeria, contemplamos inicialmente 14 telas que tematizam a figura de Cristo. É o universo do sagrado, no qual o artista trabalha intensamente as cores, conseguindo delas efeitos marcantes.
A figura se faz presente, mas o grande atrativo está na maneira como ocorre uma diluição do referente, num exercício de força plástica inegável. Os rostos são geralmente consumidos pelos fundos, caracterizados por um contínuo andamento poético e musical que desmancha as imagens
Na segunda sala, mergulha-se no mundo profano. O assunto pintado, corpos nus femininos, primam não tanto pela sexualidade ou a sensualidade, mas sim pela forma como se dá a ocupação do espaço. Predominam as sugestões de seres imersos em cores e manchas.
As pinceladas grossas, o salpicar de tintas e o entendimento da pintura como um ato no qual o fazer é entendido como uma ação gestual torna a arte de Cavalcante uma inteligente provocação. O observador fica paralisado perante a contundência das cores e dos enigmas propostos pelas imagens que visualiza.
O essencial está na quebra das fronteiras rígidas entre o sagrado e o profano. Para alguns, o Cristo transfigurado pode ser o profano e as mulheres nuas, sagradas. Para outros, o inverso é o que vale. Os espaços, enfim, interagem e as obras trazem à tona o limite, nada claro, mas fascinante, entre o idolatrado e o proibido.