
Poucas atividades representam tão bem a existência humana como os atos de plantar e de colher. Existe um tempo certo para cada atividade – e a natureza tem um sábio ciclo que vai do nascimento até a morte. A trajetória pode ter mais ou menos sobressaltos de acordo com a trajetória de cada um, mas o início e o fim nos igualam.
O trabalho com retalhos de Vânia Cardoso, intitulado “Colher e semear”, constitui uma representação plástica dessa jornada. Para um maior aproveitamento visual, demanda uma apreensão concentrada nos detalhes. Há muita sabedoria nisso, pois um fator que muitas vezes atravanca atingir o que chamamos de felicidade é se afastar da percepção dos ciclos.
A arte dos retalhos, das costuras, dos bordados e da inserção de objetos naturais em um trabalho visual lida com um particular conhecimento do olhar. Desde o céu ensolarado à terra lavrada, existe um entendimento da natureza como uma instância da vida a ser respeitada. Afinal, na maioria das mitologias, é da terra que o homem foi moldado – e para ela retorna.
As figuras humanas são encantadoras. Portam a delicadeza, a sensibilidade e a integridade que todos possuímos, mas que podemos perder em nossa caminhada vivencial. Compondo os retalhos com olhar atento e um profundo ver e sentir a vida, Vânia Cardoso nos encanta e nos faz crer que, por pior que seja uma situação, há sempre há esperança.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Coordena o projeto @arteemtempodecoronavirus e é responsável pelo site www.oscardambrosio.com.br