
Um dos maiores dilemas da pandemia está no fato de se estar combatendo um inimigo absolutamente invisível. A obra “Medo”, de Helton Sousa, de Santo Amaro, BA, consegue traduzir esse sentimento de impotência. Vive-se, como deixam evidente as nuvens na parte superior do quadro, um período de incertezas.
A atmosfera de miséria é reforçada pelo muro com tijolos aparecendo. Ele pode ser visto como uma metáfora de uma sociedade esfacelada, com desigualdades sociais aumentando e falta de liderança para caminhar unida para um porto seguro. Para onde olhar? O que buscar? Quais alternativas se apresentam no horizonte? Essas e outras perguntas vêm à tona.
A ideia do “Ficar em casa”, recomendado pelas autoridades sanitárias, encontra, por exemplo, nos sem-teto um desafio de difícil solução a curto e médio prazo. O pai com máscara segurando uma criança sobre um caixote, ao lado da mulher que cobre o rosto com um tecido vermelho, que também funciona como uma espécie de capa a proteger o marido, é pungente.
A utilização das cores e tonalidades por Helton Sousa revela ampla sensibilidade. O tema dramático é retratado com poesia, principalmente pela figura feminina. Forte, de olhar determinado, altiva, acarinha o homem na cabeça. Certamente os vínculos de família, em momentos de isolamento social e crise, podem ser, como ela mostra, uma força redentora.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Coordena o projeto @arteemtempodecoronavirus e é responsável pelo site www.oscardambrosio.com.br