
Quando se diz que o novo coronavírus atinge toda a população de maneira indistinta, é preciso levar em conta que existe um viés social muito importante. O isolamento social, por exemplo, pode ser realizado com muito mais sucesso em famílias de bairros privilegiados do que em comunidades ou regiões periféricas, em que o número de pessoas por casa e muito maior.
Para agravar a discussão da desigualdade social, é notório que a violência urbana não se encerrou na pandemia. Um triste exemplo ocorreu dia 19/5/2020, quando o menino João Pedro Mattos Pinto, de 14 anos, morreu, em sua casa, baleado, durante uma operação conjunta das polícias Federal e Civil no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, RJ.
O melancólico episódio motivou a artista visual Ge Guevara, radicada em Divinópolis, MG, a pintar a obra "Paradoxo da Pandemia". A imagem mostra que a distância entre as classes sociais prossegue sua escalada. A morte, que atinge um adolescente brincando na sala de sua casa ou por um invisível microrganismo é igualmente trágica.
A pintura evidencia dois mundos em paralelo, lado a lado, como é próprio das metrópoles. Temos altos edifícios com pessoas isoladas nas janelas; e crianças brincando com pipas em um bairro popular, com a polícia presente. Como alerta o quadro, as desigualdades sociais pré, durante e pós pandemia precisam ser combatidas – e o quanto antes.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Coordena o projeto @arteemtempodecoronavirus e é responsável pelo site www.oscardambrosio.com.br