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Arte em tempo de coronavírus (219)

Arte em tempo de coronavírus (219)
23/05/2020

A arte é um bicho estranho de três cabeças. Temos a de quem cria; a da própria obra, que ganha autonomia no momento em que está pronta; e a de quem vê, livre para fazer a sua interpretação. As três instâncias não necessariamente caminham – ou devem caminhar – na mesma direção, o que permite deliciosas confusões.

Por meio de uma aquarela de sua série “Gestuais”, a artista visual Luisa Libardi dá sua contribuição para que usemos o nosso cérebro. Na presente quarentena, ela vem realizando o seu trabalho e nos permitindo pensar um pouco (ou muito) com imagens que mesclam a sutileza com a intensidade.

Se a delicadeza ao lidar com as tonalidades é uma característica da obra, a expressão do gesto cria um contraponto. Há uma mescla entre a sobriedade que conduz ao nosso interior e a expansão que leva ao exterior. Na imagem, é possível até encontrar traços que evocam rostos humanos. Mas é isso não é o importante. Ela é, acima de tudo, movimentos e transparências.

No atual momento nacional em que há mais perguntas que respostas, a arte de Luisa Libardi é um delicioso campo minado. Faz explodir a percepção, porque vem carregada de emoção genuína, um sentir acima das questões temporais. Conduz assim os cérebros da arte a um elevado e indispensável patamar de sensibilidade e carinho pela raça humana.

Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Coordena o projeto @arteemtempodecoronavirus e é responsável pelo site www.oscardambrosio.com.br