
O escultor Samuel da Silva Junior tem como principal característica visual a transformação de sentimentos em aço, ou seja, cada uma de suas peças, feitas a partir do uso de peças usadas, como pregos, porcas, parafusos e serrotes, traz geralmente uma reflexão existencial sobre o cotidiano. Um de seus assuntos mais frequentes é justamente o das escolhas.
O que somos é resultado do que decidimos. No atual momento de pandemia, esse tema ganha uma especial relevância. Isolar-se ou sair à rua e usar ou não máscara, por exemplo, são decisões pessoais que afetam a coletividade. A vida, nessa linha de raciocínio, pode ser interpretada como uma página em branco a ser escrita por cada passo dado.
A obra “Páginas em branco" apresenta essas questões de maneira intensa, a começar pelo impacto de a folha e a caneta bico de pena serem maiores do que o personagem humano, vergado pelo peso da vida. Evidencia-se assim a pequenez de cada um perante o mundo e como cada decisão tomada impacta a si mesmo e ao conjunto.
Escolher significa justamente deixar de lado alguns caminhos em nome de outros. Isso demanda reflexão e maturidade. Quando alguém pensa que é maior do que o mundo costuma fracassar em sua jornada individual e coletiva. A escultura de Samuel da Silva Junior funciona como alerta de que aquilo que somos depende totalmente das escolhas do que fazemos.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Coordena o projeto @arteemtempodecoronavirus e é responsável pelo site www.oscardambrosio.com.br