
A maturidade de um artista plástico se dá de diversas formas. Uma delas está em construir a sua caminhada pelo desenvolvimento de projetos nos quais possa aprimorar a sua linguagem visual. Isso significa buscar entender melhor o que deseja dizer e as formas técnicas de expressar sua percepção de mundo, com a composição, formas e cores que achar melhor.
A série “Favelas”, de Carlos Gomes, é justamente a construção de um andar poético de um artista em busca de si mesmo e da melhor manifestação desse andar. Os espaços repletos de escadas e becos, comuns nas comunidades de grandes cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, são tratados numa dimensão que motiva perguntas e gera mistérios.
O principal está na ausência de pessoas. O vazio de vidas humanas remete a pensamentos metafísicos, ou seja, a ideias que levem a uma investigação das realidades que transcendem a nossa experiência sensível. Entra-se, assim, no campo essencial da natureza do ser. As escadas que vão do nada para nenhum lugar podem ser então lidas como as sinapses de nossa mente.
Os pontos de interrogação que a imagem de Carlos Gomes ergue se fundamentam pelo uso da linha reta e pela racional separação das cores. Surge um mundo delineado como uma tela de computador, manifestação visual de uma realidade binária. Essa imagem misteriosa contrasta com as nuances do mundo – e por isso fascina. Afinal, para onde levam esses caminhos?
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Coordena o projeto @arteemtempodecoronavirus e é responsável pelo site www.oscardambrosio.com.br