
Uma das cenas mais impressionantes no Brasil sobre a pandemia causada pela COVID-19 é a das covas comuns abertas em série na cidade de Manaus, AM. A partir dela, a artista visual Lu Maia oferece, em “COVID: sobrevoo de drone em Manaus”, a sua interpretação do fato amplamente divulgado pela mídia em uma imagem minimalista e contundente.
O trabalho é pleno de força no sentido de uma denúncia e de um pranto à situação da região. São três elementos que se articulam. Temos um drone sobrevoando um espaço delimitado em duas áreas bem definidas. Na parte inferior, em marrom, as covas com as cruzes indicando os caixões depositados. Na superior, em verde, a floresta amazônica.
O contraste é eloquente e pungente. Acreana, radicada em João Pessoa, PB, há quase 30 anos, a artista consegue dar forma a um sentimento coletivo utilizando-se das cores e formas que geram um contraste entre as manchas irregulares da vida da natureza amazônica e os retângulos da morte de habitantes locais. A ausência de pessoas fortalece o conceito de luto.
O drone, que funciona como um grande inseto, em posição privilegiada a observar tudo, reforça a percepção de que se vive um momento único, em que uma visão aérea é eloquente pela sua característica silenciosa. Ela mostra uma realidade que não gostaríamos de ver e grita rumo à esperança de construção de um futuro, embora parte dele já esteja perdido.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Coordena o projeto @arteemtempodecoronavirus e é responsável pelo site www.oscardambrosio.com.br