
O mais maravilhoso de uma imagem é que ela permite múltiplas leituras. Ao se observar um desenho, pintura, fotografia, colagem ou obra digital, aquilo que se vê propicia mergulhar, é claro, naquilo que o autor pensou no processo de criação; mas, acima de tudo, oferece a possibilidade de buscar, no próprio cérebro e no alheio, o que ninguém poderia imaginar.
O artista visual italiano Michele Angelillo leva justamente esse tipo de reflexão em seu trabalho plástico. A imagem de uma representação gráfica do coronavirus semienterrado, com mãos ao seu redor que parecem tentar que desapareça para sempre, pode ser traduzido no gesto de pessoas, de cientistas célebres a anônimos, na busca de uma vacina ou da cura.
A presença da terra é essencial no sentido simbólico (Eclesiastes 3:20: “Tudo e todos se dirigem para o mesmo fim: tudo vem do pó e tudo retorna ao pó”; ou Gênesis 3:19: “Com o suor do teu rosto comerás o teu pão, até que voltes ao solo, pois da terra foste formado; porque tu és pó e ao pó da terra retornarás!”) e enquanto planeta.
Enterrar significa esconder e cobrir. Significativamente, o que precisa ser feito neste momento está muito além disso. Não se trata de velar, mas de conhecer o vírus cada vez mais e melhor, via testes, para que a ciência possa encontrar alternativas. Assim, a humanidade poderá retomar a sua trajetória – talvez, como as mãos trabalhando juntas indicam – mais solidária.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Coordena o projeto @arteemtempodecoronavirus e é responsável pelo site www.oscardambrosio.com.br