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Arte em tempo de Coronavírus (148)

Arte em tempo de Coronavírus (148)
05/05/2020

Poucos trabalhos relatam tão bem a dor da pandemia causada pela COVID-19 como a obra de Edmar Fernandes que ilustra este post. Intitulada “Sem despedida”, é feita sob o impacto das melancólicas cenas que estamos vendo hoje no Brasil de pessoas enterradas em covas sequenciais sem velório ou acompanhamento de familiares.

Transmitir esse cenário pictoricamente é um desafio. O artista consegue pela valorização do tom ocre da terra, que auxilia na composição mais escura e densa da cena. Diversos momentos da ação dos coveiros constroem uma espécie de painel marcado pela tristeza e pelas ações infelizmente repetidas, em que os azuis e verdes auxiliam a manter um silêncio harmônico.

Desde o momento em que é aberta a cova até o sepultamento, existem etapas quase ritualísticas, representadas em meio às cruzes. Trata-se de uma jornada tensa e melancólica em que as máscaras já estão incorporadas como forma de prevenção e, é claro, expressam também o medo de se infectar e de ser infectado.

A obra de Edmar Fernandes representa uma faceta muito rica da pintura dita naif. Alguns artistas atuam como autênticos repórteres, trazendo cenas do cotidiano, alegres ou tristes, para a sua linguagem visual. Neste momento de crise do sistema funerário de algumas cidades, obras como esta levam a refletir sobre para onde caminhamos e para onde queremos ir.  

Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Coordena o projeto @arteemtempodecoronavirus e é responsável pelo site www.oscardambrosio.com.br