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Arte em tempo de Coronavírus (120)

Arte em tempo de Coronavírus (120)
01/05/2020

Poucos objetos estão tão próximos da ideia de confinamento em cômodos como a caixa. A ideia de estar fechado em casa se aproxima do conceito de viver limitado dentro de um espaço, sem opções a não ser olhar para as paredes e refletir sobre nosso papel no mundo. Sem sair para o ambiente externo, o mundo interno é uma guarida, nem sempre agradável.

Marli Takeda construiu assim uma caixa que representa o presente momento de isolamento social. Temos, por exemplo, ali a pintura em tinta acrílica sobre tela de uma rede, alusão à possibilidade de descanso e relaxamento, além de valorização da capacidade artesanal de construir o próprio destino, já que cada uma delas é feita com entrelaçamentos de fibra e fios e acabamento em crochê.

Sobre a rede está um daruma, objeto associado a Bodhidharma, monge da Índia fundador do Zen Budismo na China. Acredita-se que ele tenha atingido a iluminação após meditar por um período de nove anos no qual permaneceu sem mover ou fechar os olhos, tendo removido as pálpebras para não dormir. A artista mantém essa tradição do daruma.

Quem recebe o objeto vermelho, arredondado, sem braços e pernas, atrofiados pela meditação prolongada, pinta um olho e faz um pedido. Quando é atendido, pinta-se o segundo como agradecimento. Plasticamente, Marli Takeda construiu a sua caixa, fotografou, editou as cores e nos oferece o conjunto como um pedido de participação visual e intelectual.

Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Coordena o projeto @arteemtempodecoronavirus e é responsável pelo site www.oscardambrosio.com.br