
Radiologista, o italiano Michele Angelillo realiza um trabalho visual em que a fotografia é fundamental. O olhar treinado para o detalhe concebe a imagem como um campo de provas da riqueza da existência. Isso permite um jogo de composições em que parece existir apenas uma proibição: não experimentar. Correr riscos é fundamental.
Todo o resto é permitido. O artista se dá essa liberdade. Assim, ao tratar do coronavirus e da COVID-19, ainda mais tendo como referência um país que sofreu – e ainda sofre – sérias consequências, ele se vale de vários elementos, que são justapostos para trazer uma criação de forte impacto.
Ao fundo, um céu de nuvens escuras mostra pontos que indicam o clarear de um novo dia; espalhados pela imagem, temos os coronavírus, em vermelho, ameaçadores; dentro do cérebro, as lápides, indicando o luto que dominará a memória italiana para sempre ; e o resto da cabeça, ao ser apresentada como raios-X, alerta para a nossa vulnerabilidade.
O conjunto leva a uma reflexão de como uma obra de arte ganha força. Para que ela atinja um elevado patamar de densidade interpretativa, é essencial que seus diferentes componentes se articulem, mantendo a força separadamente, mas construindo um conjunto em que cada elemento, ao ser conjugado aos outros, contribua decisivamente para a visualidade.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Coordena o projeto @arteemtempodecoronavirus e é responsável pelo site www.oscardambrosio.com.br