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Arte em tempo de Coronavírus (94)

Arte em tempo de Coronavírus (94)
25/04/2020

O mundo da cerâmica é um universo muito especial, repleto de sutilezas. Para aqueles que são apaixonados pela modelagem, por exemplo, entrar em contato com a argila é uma jornada apaixonante e simbólica, muito ligada aos mitos de criação, nos quais dar origem a formas é estabelecer uma espécie de ordem própria, plena de prazer e de mistério.

Lia Freitas é uma criadora dessa estirpe. Neste período de quarentena, realizou uma série de marimbondos, e a obra que intitulou “Túmulo da Liberdade” permite uma série de analogias. Lembra que os insetos buscam poças d’água com terra para ali fazerem seus ninhos. No entanto, perante a epidemia, o que encontram são ruas vazias e pessoas mortas.

A visão, pessimista e forte, dá-se num cenário de tristeza pela vidas pedidas e famílias abaladas com as pessoas subitamente consumidas e muito abatidas. Se os ceramistas e os marimbondos constroem, respectivamente, seus vasos e ninhos como atos demiúrgicos empolgados, a onipresença da morte abala.

Os marimbondos da narrativa simbólica de Lia Freitas, e os artistas buscam seu futuro. A constatação dos insetos, como a dos artistas, de que o silêncio e a putrefação substituem o alvoroço e o odor das flores, cria um mal-estar e incerteza. O “Túmulo da liberdade” pode se tornar o nascimento de uma esperança num porvir a ser moldado.

Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Coordena o projeto @arteemtempodecoronavirus e é responsável pelo site www.oscardambrosio.com.br.