
Existem muitas maneiras de retratar a universo feminino. Podem ser enfocados diversos aspectos, sendo que sempre os simbólicos são os mais interessantes, pois ampliam as nossas possibilidades de interpretar o mundo. Quando se pensa nas artes visuais, o desafio pode ser ainda maior perante o imenso repertório de trabalhos já existentes.
Soraya Balera nos traz a sua visão – e ela é plena de sentidos. Lida, por exemplo, com elementos essenciais vinculados aos arquétipos da mulher, como a sensualidade do cabelo e a maternidade do umbigo, mas não deixa de lado outras informações plásticas, como a posição meditativa das mãos. E tudo isso se articula com elementos da natureza.
Reside aí um grande fascínio, pois o corpo, da cabeça aos pés, estabelece um ritmo vital com a força dos galhos, em seus movimentos ascensionais, os olhos do pavão, vinculados miticamente à beleza e à vaidade, além de marcantes flores vermelhas a dialogar com o rosto da figura central. Cria-se assim uma atmosfera que remete à multiplicidade do feminino.
O essencial nisso tudo está na capacidade de cada uma ser muitas. Isso permite as conexões simbólicas da imagem de Soraya Balera com o céu e com a terra, sem perder a dimensão humana. O fato de o feminino navegar por vida, morte e eternidade confere à mulher e à natureza a característica de estar em todos os lugares ao mesmo tempo com sua sabedoria.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Coordena o projeto @arteemtempodecoronavirus e é responsável pelo site www.oscardambrosio.com.br