
Período de isolamento social é momento de olhar para si mesmo. Trata-se de um exercício necessário em todos os instantes, mas que vem sendo praticado com mais intensidade em uma realidade em que as pessoas estão com mais tempo para ficar consigo mesmas em suas residências.
Mesmo cercadas pelos familiares, aumenta a possibilidade de pensar mais no próprio sentido da vida. E a literatura e as artes ajudam. A artista plástica Monica Vianna, por exemplo, encontrou o poema “Efígie”, de Katia Borges: ”Costura o Sol no peito/pela parte de dentro da blusa, / como se efígie reversa, no ano inteiro, / e no lado inverso escreve chuva. // Subverte as estações/por dentro e, no inverno, /orquestra flores, /enquanto o outono/ ainda desfolha-se, / costura o Sol no peito”.
O nome do poema alude à representação de alguém em uma moeda, pintura ou escultura. O texto da poeta leva a um movimento de identificação oposto ao de uma imagem que se vê de fora para dentro. Aponta sim para a necessidade de cada um se enxergar de dentro para fora (“efigie reversa”), o que possibilita uma “costura” caracterizada pela intensidade solar.
Monica Vianna dá à sua obra em acrílica sobre tela com inserções de folha de ouro o mesmo nome, “Efigie”. As tonalidades quentes indicam o ato de subverter a realidade, simbolicamente representado no poema pela troca das estações da natureza, que aponta para a necessidade de, como o quadro sugere, sondar e de transformar os estados de nossa alma.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Coordena o projeto @arteemtempodecoronavirus e é responsável pelo site www.oscardambrosio.com.br