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Gavira Engates e dormentes

Os trens estão em boa parte da imaginação da população nacional, principalmente a do interior. Eles alimentaram os sonhos de toda uma geração e infelizmente foram desaparecendo em função de outras escolhas da política nacional de transportes.
            Mesmo assim, eles constituem uma fonte quase inesgotável para a criatividade. O escultor Gavira, nascido em Birigui, Estado de São Paulo, encontrou justamente nesse universo o ponto de partida para o desenvolvimento de uma série em que selecionou especificamente um elemento do mundo ferroviário: os engates.
             Ao realizá-los em bronze, cria numerosas analogias, especialmente a da visão deles como a expressão visual do encaixe entre masculino e feminino, uma temática anteriormente elaborada numa série figurativa. Além da questão plástica, surge um elemento existencial na interação entre elementos díspares e complementares.
            A base empregada para as esculturas são os dormentes, ou seja, pedaços de madeira utilizados para distribuir as cargas passadas pelo trem para o solo e para impedir que os trilhos metálicos se separem. Isso oferece ao trabalho um fascinante teor rústico.
            Ao retomar um assunto que lhe é familiar, já que os trens povoaram a sua infância, e dar-lhe uma feição contemporânea, pelo diálogo entre o bronze e a madeira, Gavira emociona e envolve o observador. Sua arte conquista assim por juntar a memória à técnica.
A frieza do metal ganha humanidade pela conversa com o elemento orgânico e por aquilo que evoca de lembrança e de imaginário coletivo enquanto obra de arte. Cada engate é um elo com o mundo dos trens e com um mundo que poderia ter sido e não foi, mas que continua a ser evocado em nossa mente.