
Transporte público esvaziado, ruas desertas e casas de espetáculo fechadas. Esta realidade que o coronavírus e a COVID-19 trouxeram traz inúmeras implicações e alimenta a imaginação de cada um de nós. Para os artistas visuais, cuja matéria-prima é a imagem, esse conceito do vazio, que esteve cheio um dia e que voltará a estar, pode ganhar muitos significados, pois lida justamente com a passagem do tempo, elemento essencial na existência.
Fernando Priamo é um fotógrafo que se caracteriza pela sobreposição de imagens. Isso significa justamente que o caminhar dos segundos é parte essencial da sua compreensão daquilo que a arte pode representar em termos de reflexão sobre o espaço e o tempo. Escolher um espaço e determinar tempos de exposição da imagem são a matriz de sua poética.
A técnica, o movimento da câmera e a sensibilidade estão unidas nesse processo. É o que ocorre ao olhar a imagem da Ópera de Vienna vazia, com os instrumentos dispostos para serem tocados e escadarias e palco prontos para receber pessoas. A ausência de gente torna a imagem final criada pelo artista cheia de sentido, principalmente na presente conjuntura.
Analogamente, a sobreposição cria a ideia de cheio, mas também acentua o vazio. Cristaliza a ambiguidade atual. O silêncio dos espaços sem pessoas, por exemplo, estimula rumores internos de nossa mente como antes não existia; e um espaço de arte musical sem som promove ativar a memória do que ali foi tocado e a imaginação do que será interpretado.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.