
A escultura tem uma característica muito especial, própria da sua estrutura física. Mesmo que ela parta de um desenho ou de um mero esboço, realiza-se de fato quando, literalmente, o criador coloca a mão na massa. É na modelagem que se torna possível perceber como uma ideia ganha forma.
Adri Lang cria sua obra sobre o coronavírus e a COVID-19 de maneira a estabelecer um todo orgânico. Na parte superior da peça, temos uma esfera com as características visuais da imagem que nos acostumamos a ver na mídia, enquanto a parte central está marcada por sulcos e relevos de várias espécies, constituindo uma espécie de mundo em ebulição.
A metade inferior, na qual o globo estilizado se apoia, tem um grande interesse estético. Por um lado, evoca o tronco de uma árvore, inclusive pelas suas reentrâncias, mas também remete a cavernas pelos vazios existentes. Curiosas raízes ligam a esfera à terra, sendo difícil saber quem está dominando quem.
O telúrico, que provém das profundezas do planeta, parece estar reagindo perante o ser que vem do ar e deseja ocupar o espaço. A luta, complexa, pode ser longa, e a arte desempenha o importante papel de demonstrar tensões que podem levar a uma harmonização. Na imagem de Adri Lang, o vírus parece reinar, mas talvez seja abraçado pelas próprias forças da Terra.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.