
E não é que tudo mudou? O mundo era de um jeito e agora está de outro, sendo muito difícil saber como ele ficará depois de tudo o que está ocorrendo. Uma pandemia como a que estamos vivendo extrapola a saúde e nos faz mergulhar na economia, não a dos frios números, mas a do cotidiano, a de pessoas empurradas para a pobreza ou para a miséria.
A sociedade foi invadida por um vírus, com um formato que lembra um planeta, e ele se espalha pelo ar, penetrando em gargantas e pulmões, em transportes públicos e em casas, causando desde estados febris sem maiores consequências a mortes. Invisível, causa dores inesquecíveis para pessoas, famílias, cidades e países.
A obra de Selma Gusmão, que utiliza colagem e pintura acrílica sobre papel, consegue retratar todo esse sentimento com intensidade. Estão ali partículas visíveis a ocupar a superfície, do céu ao solo, com uma dinâmica giratória, como se tudo não passasse de um videogame. Mas essa beleza plástica torna-se apenas uma espécie de descanso visual para uma triste realidade.
A cidade, devido à maneira como a artista lida com os traços e as cores, parece estar repleta de vida, o que é paradoxal, pois os principais centros urbanos do planeta vivem justamente o esvaziamento das pessoas, isoladas em casa. Assim, o mundo urbano de Selma Gusmão está ocupado por algo que ninguém vê, mas que todos sentem, física ou psicologicamente.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.