
Uma tela abstrata pode ser o retrato de um momento interno e externo. Talvez não seja absurdo chamá-la de retrato de uma emoção. Afinal, ela existe justamente por realizar conexões de uma sociedade com um criador; e deste com o seu público. Trata-se de um tripé mágico, muito estudado, mas pleno de mistérios.
O trabalho “Colcha de Retalhos”, de Rosana Ferreira – RoF, pelo seu título, já leva a pensar, no presente contexto da separação física que a as pessoas vivem. Paradoxalmente, porém, os mais variados meios de conectividade fazem que essas fronteiras físicas, com muros, barreiras, fronteiras e aeroportos fechados, venham se tornando mais permeáveis a sensibilidades.
Cientistas, por sua vez, dialogam física e virtualmente em busca de uma vacina ou cura que reduza ou termine isolamentos. Na pintura, pode-se interpretar o vermelho como o vírus e a doença que ele causa, a Covid-19, enquanto o verde estaria vinculado à esperança de cura. Esta interpretação não é melhor ou pior a qualquer outra. É mais uma possibilidade.
As obras de Rosana Ferreira lidam justamente com esse universo da percepção. As zonas de cores indefinidas são um permanente alerta para distintas leituras. O fascínio vem justamente das aberturas que a realidade nos dá, pois as obras que hoje são vistas e comentadas de uma maneira, seguramente o serão de outras muito em breve. A mutação permanece – e encanta.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.