
A presente realidade da COVID-19, que abala o sistema de saúde brasileiro, vem colocando no centro das atenções uma série de problemas onipresentes, mas que ficavam, de certa maneira, escondidos. Dois deles são a péssima condição de moradia e de saneamento básico das comunidades e a necessidade de que medidas emergenciais cheguem a essas populações.
O artista plástico Jabim Nunes já vem trabalhando há algum tempo com a questão das casas que se acumulam e se justapõem nos morros cariocas. Costuma lidar com assunto a partir de madeiras já utilizadas recolhidas e de um trabalho de desenho e pintura. A denúncia ganha novos contornos com a atual pandemia.
A série “Quem tem fome tem pressa” leva essas imagens para pratos. As moradias vão para um novo suporte, sendo apresentadas em diversas composições. Os desenhos originais são reproduzidos em um novo material: barbantes. Colados no prato, são encaminhados para uma fábrica. O prato, ao ser jateado, apresenta em branco as áreas em que o barbante estava.
O desenho é então preservado; e um banho de verniz propicia o acabamento final. Uma obra que alguns podem tomar iniciativa como decorativa ou utilitária, por se valer do prato como suporte, ganha características conceituais por relacionar a imagem de casas populares com a demanda imediata por comida de pessoas sem renda no presente momento de crise.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.