
O entendimento da arte como um processo dialético é muito importante. Grosseiramente, o processo funciona em três momentos. Existe um movimento em uma direção (tese), com sua estética e seus argumentos; e depois outro, na direção contrária (antítese), com suas próprias justificativas. Daí surge um terceiro momento (a síntese).
O essencial é que isso acontece ao mesmo tempo em várias dimensões e instâncias. Quando vemos o trabalho em acrílico sobre tela intitulado “DISSEMINAÇÃO n. 03-04-20”, de SaNDrA HuAnG, logo podemos pensar, com uma lógica dialética, que disseminar e espalhar encontra sua antítese em juntar e agregar.
E qual seria a síntese disso tudo? Obras como as da artista talvez possam apontar caminhos. As manchas, que aludem a cartografias áreas, microrganismos ou diversas formas orgânicas e imagináveis na mente do observador, abrem riqueza interpretativas, veredas que nos tornam incrivelmente humanos.
As cores, como o negro e o vermelho indicam um tom mais sombrio, próximo do mundo mineral das entranhas da terra (ou, talvez, da nossa mente?). Mas, dentro de princípios dialéticos, é dessas sombras que virá a luz e, posteriormente, uma síntese em que não seremos o mesmo que éramos. Seremos outros. E ainda não sabemos como nem quando.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.