
Como se sente um artista visual em tempo de coronavírus? A imagem de Carlos Gomes que ilustra este post vale para um criador de imagens, mas também para qualquer pessoa que vivencia um momento da história que poucos imaginavam. Mas estar confinado, abrindo mão da liberdade individual de ir e vir, por um ideal coletivo maior, tem seu lirismo.
Para quem cria, a solução é continuar criando. A fusão entre o corpo do artista que está próximo da janela e a escadaria que compõe o seu corpo alerta como o indivíduo pode se unir ao ambiente e à arquitetura, tornando-se um só. E essa união cria um novo ser, que apreende, ou pelo menos busca entender, o seu redor de uma nova maneira.
A realidade que está do outro lado da janela se aproxima muito daquela que está dentro. Caminhos parecem estar bloqueados, e as alternativas para onde prosseguir não se apresentam claramente. Talvez isso ocorra porque a autêntica vereda a ser percorrida pelo artista não está fora, mas dentro.
Olhar uma tela é mergulhar nela como em uma piscina. Existe, porém uma diferença. Na mente, não há azulejos limitadores. Os espaços são infinitos. Assim, o artista aparentemente confinado pelas restrições de combate à COVID-19 pode viajar. As restrições externas levam à expansão do ato de criar, como ocorre com a desafiadora geometria de Carlos Gomes.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.