
Uma questão muito recorrente entre artistas e apaixonados por arte é se deve ser colocado título em um trabalho e, se a decisão for positiva, como isso deve ser feito. A questão ganha ainda mais relevância quando a figuração é sugerida, pela diluição de formas e traços, ou em obras abstratas.
Vamos utilizar uma tela de Monica Vianna para refletir sobre o tema. Se ela fosse chamada “Casal”, o observador buscaria logo identificar duas figuras ligadas de alguma maneira. Um outro caminho seria ir por alguma abstração (“Amor”, “Paixão”), que também direciona no sentido de encontrar uma emoção.
Colocar o nome de uma cor (“Azul”, por exemplo), também dá um indicativo de interpretação. Só que a vereda a ser buscada pelo olhar seria diferente, plástica, indiciando a observação da presença da cor em suas nuances. É claro que a imagem mais ou menos identificável, será vista e discutida, mas a opção inicial teria sido pela indicação de um uma jornada visual.
Chamar a obra por uma escala numeral é outra alternativa. Algo na linha 7/2020 indica que se trata da sétima obra do ano descrito, sendo uma maneira ligada a códigos de catalogação de biblioteca. Temos a frieza de uma sequência e informações sobre quando a obra foi feita e sua posição quantitativa da produção de um determinado ano.
O mais detalhista poderia chamar o trabalho pela data em que foi dado como terminado. Por que não? É possível também descrever quando a obra começou e terminou. E se alguém quisesse inserir horários de começo e término? “27/3/2020, 12h40 - 28/3/2020, 9h38”. Dá até para colocar cidade e local: “27/3/2020 - 28/3/2020, 9h38, São Paulo – SP – Brasil”. Vale tudo!
A escolha essencial está em pensar se há o desejo de indicar ao público algum caminho a seguir. Qualquer nome indica uma sugestão. Optar pelo “Sem Título” cria a liberdade de interpretação e deixa evidente que o artista decidiu que deixa ao seu público a opção de interpretar como quiser. É uma vereda que demanda humildade e coragem.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.