
Muitas vezes, quando um artista tem um estilo bem definido e no qual procura se aprofundar, a possibilidade de lidar com um tema com o qual não está habituado pode gerar certo incômodo. Enfrentar esse sentimento parece sempre ser a melhor alternativa. Aprecie-se ou não o resultado final, sair da chamada zona de conforto é um lindo desafio.
A beleza está em, muitas vezes, buscar formas de adaptar aquilo que parece externo com a prática que se domina e na qual se procura melhorar sempre. É exatamente isso que faz o artista visual Carlos Gomes. Ao tomar o coronavírus, um assunto que não é habitual – como não é para quase ninguém no mundo até faz poucos meses, o coloca em sua perspectiva.
A linguagem geométrica é mantida, mas é utilizada para mostrar o próprio vírus. Seu olhar recai sobre como a doença COVID-19, com o a restrição pública de encontros sociais, importante medida para diminuir o colapso do sistema de saúde nacional, trouxe, por exemplo, uma outra morte provisória: a dos espaços musicais ao vivo.
A guitarra e seu músico estilizado estão em um ambiente fragmentado e vazio. A ausência não é necessariamente por falecimento físico, mas simbólico. Não há gente porque elas não devem estar lá. Abrir mão de ver a arte ao vivo é hoje uma atitude que salva a si mesmo e aos outros. Pode ser triste, mas, segundo indica a Organização Mundial de Saúde, necessário.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.