
Certamente uma das questões mais interessantes no universo do confinamento dentro do contexto da COVID-19 é a retomada do perdido hábito de conviver em família. Algo que deveria ser, como foi, por séculos, relativamente natural, tornou-se um desafio psicológico e existencial. O tenebroso paradigma da incomunicabilidade se institui.
O artista visual Filipe Gradim cristaliza a questão ao colocar um grupo de pessoas em um sofá, em posições corporais que indiciam apatia e com olhares desencontrados. Estariam perante um monitor de televisão? Estão encarando os que observam o trabalho? E a criança? O que procura? E quem está ao seu lado? Pensa se existe um futuro para as próximas gerações?
Essas especulações, muito mais da adivinhação e da filosofia do que das artes visuais, são motivadas pela maneira como o artista consegue compor seu trabalho. O desalinhamento do fundo do sofá em que os personagens estão sentados acentua a percepção de que algo caminha em desarmonia. A expressão da figura da direita retrata um amanhã comprometido.
O conjunto, paralisado, à espera de algo que não sabemos o que pode ser, funciona como uma espécie de ícone da situação atual. Boa parte do mundo parou, e os indivíduos se sentem isolados, mesmo em grupo. O medo se tornou onipresente, e as pessoas sentadas olhando para o vazio de Filipe Gradim cristalizam essa percepção de mundo.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.